Sobre hádrons, amores e o fim do mundo

Hoje pela manhã li em um dos blogs que acesso diariamento a notícia sobre o iminente teste do LHC (Large Hadron Colidder) ou Grande Colisor de Hádrons do Centro Europeu de Estudos de Energia Nuclear.

Fiquei fascinado pelo tal aparelho, um anel de 27 km de diâmetro (!) formado por magnetos gigantescos, um sistema de refrigeração absurdo e um fim mais louco ainda. Ah, é aí que você queria chegar né? Afina, para que raios serve esse negócio fantástico.

Bom, para não me tornar chato, vou ser suscinto: átomos, são formados por partículas ok? Bom tudo o que vemos hoje no universo é resultados de colisões primárias dessas partículas que formaram os átomos e todo o resto da matéria. Bom, o que os caras vão fazer é reproduzir essa colisão inicial, um mini Big Bang por assim dizer que necessita de uma força inimaginável para acontecer. Comofas??? Pegue duas partículas subatômicas e faça ela dar voltas e voltas no anel de 27 km até acelerar à velocidade da luz, algo em torno de 300 mil km por segundo. No sentido contrário, faça o mesmo com outra partícula e, quando as duas estiverem quase virando luz, bata uma na outra.

Estamos falando de uma colisão à velocidade somada de 9 elevado à décima potência metros por segundo… Isso é muita energia! Tanta que seria capaz de criar um burando negro, um portal dimensional, uma matéria estranha, ninguém sabe! Todo mundo finge que sabe mas de acordo com alguns cientistas pode ser o fim de tudo. Pense. Os caras reproduzem uma situação que só ocorreu no início do Universo, quem garante que isso não criará uma matéria estranha que vai tranformar tudo em matéria estranha e engolir eu, você, seu computador, sua casa, seu cachorro e todo o resto do planeta e do sistema solar. Louco né?

Sem querer discutir se vai ou não acontecer um cataclisma multidimensional o que quero dizer é que, por alguns instantes, a simples possibilidade de tudo o que conheço acabar hoje me fez ver o quanto não fiz nada, o quanto minha vidinha é pequena e o quanto eu poderia ter feito. Gosto do caos, de possibilidade de ver o mundo se acabando em chamas, tudo pegando fogo, explosões e etc, isso faz minha imaginação voar alto, mas nesse caso, fora a fotografia hollywoodiana de tudo pegando fogo me perguntei… Eu falei que gostava da minha família hoje, eu disse eu amo você o suficiente, eu dei aquela moeda pro cara na rua, eu dei passagem no trânsito o suficiente, eu sorri, eu falei obrigado, eu levei meu trabalho a sério o suficiente? Qual é o meu legado, o que eu fiz que foi memorável?

Sabe, a conclusão a que eu cheguei foi que esses marcos que todo mundo reconhece como fundamentais, escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho… Cara, isso é coeso e normal demais… Sabe o que eu deixo? Um sorriso nos lábios de uma das mulheres que tive ao acordar e me ver ao seu lado. Sabe o que eu deixo? Um conselho que fez um dos meus amigos repensar na vida… O primeiro beijo que dei no meu irmão depois de 22 anos de vida dele. O orgulho do meu pai em saber que vou compartilhar com ele a São Silvestre desse ano, mesmo que nem ela, nem São Paulo, nem o Sistema Solar exista mais. O momento em que vi o sorriso do meu velho e dei-lhe um aperto de mão foi e sempre será eterno.

Os marcos são muito pessoais não é? Um alô, um olhar, uma lágrima, uma surpresa… Um choro… São fatos que são atemporais, seus, meus e só nossos de mais ninguém.

Pensando assim eu me senti realizado, eu fiz sim diversas pessoas felizes, eu dei muito prazer, alegria, gozo, satisfação, orgulho… e também raiva e desgosto, mas isso uma pequena parte que todo mundo um dia acaba causando.

Depois que passei a pensar nesses meus marcos, incrivel, lembrei do rosto de cada pessoa a quem eu dei um tipo de sentimento bom, e o que mais me encanta é lembrar do brilho dos olhos, talvez a forma que mais bem represente o possível cataclisma atômico: uma faísca de luz inesquecível, dentro de uma imensidão negra…

Que se o Universo acabar hoje ou quando o tal do LHC funcionar, acabe com um brilho nos olhos… Que seja inesquecível pra você, pra mim e para a pessoa em quem você tá pensando agora também.

Até…

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